Como dimensionar um sistema de barramento blindado: guia passo a passo

01 de Outubro de 2026

Decidiu especificar barramento blindado para o seu projeto? O próximo passo é o dimensionamento correto do sistema. Um barramento superdimensionado eleva desnecessariamente o custo do projeto; um subdimensionado opera em sobrecarga, reduz a vida útil e compromete a segurança da instalação.

Este guia apresenta os parâmetros técnicos que determinam o dimensionamento de um sistema de barramento blindado e como calculá-los ou estimá-los para cada projeto. O dimensionamento final deve sempre ser validado pelo engenheiro responsável pelo projeto elétrico, conforme as normas aplicáveis.

Este artigo cobre o dimensionamento elétrico do barramento. O dimensionamento mecânico — suportes, espaçamentos, fixações — e o layout dos acessórios são definidos em conjunto com o fabricante a partir do projeto elétrico aprovado.

Os parâmetros de dimensionamento

O dimensionamento de um sistema de barramento blindado envolve alguns parâmetros principais, que precisam ser determinados em sequência:

Parâmetro

O que define

Corrente nominal de projeto (In)

A corrente que o barramento deve conduzir continuamente — base de todo o dimensionamento

Corrente de curto-circuito (Icc)

A corrente máxima que o barramento deve suportar em condição de falta

Queda de tensão (ΔU)

A perda de tensão ao longo do percurso do barramento — não deve ultrapassar os limites da norma

Grau de proteção IP

O nível de proteção do invólucro contra ingresso de objetos sólidos e água — definido pelo ambiente de instalação

Temperatura ambiente

A temperatura máxima do local de instalação — afeta a corrente nominal pelo fator de correção térmica

Percurso e acessórios

O trajeto físico do barramento — define os acessórios necessários (curvas, derivações, plugues)

Passo a passo de dimensionamento

Passo 1 — Calcular a corrente nominal de projeto (In)

A corrente nominal de projeto é a corrente que o barramento deve conduzir continuamente em operação normal. Ela é calculada a partir da potência total das cargas alimentadas pelo sistema, aplicando-se os fatores de correção pertinentes.

Para um sistema trifásico equilibrado:

Grandeza

Fórmula / Valor

Corrente de plena carga (IL)

IL = P / (√3 × V × FP)

P = potência total (W)

V = tensão de linha (V)

FP = fator de potência

Fator de demanda (FD)

Relação entre a demanda máxima e a potência instalada total. Tipicamente entre 0,6 e 0,9 para instalações industriais.

Corrente de demanda (ID)

ID = IL × FD

Reserva de capacidade

Recomendado: 20–25% acima da corrente de demanda para acomodar crescimento futuro

Corrente nominal de projeto (In)

In = ID × 1,20 a 1,25

Exemplo: uma instalação com carga instalada de 2.000 kW, tensão de 380 V, fator de potência de 0,85 e fator de demanda de 0,70 resulta em corrente de demanda de aproximadamente 2.500 A. Com reserva de 20%, a corrente nominal de projeto é de 3.000 A — o que indica um barramento de 3.200 A como especificação adequada.

Passo 2 — Verificar a corrente de curto-circuito (Icc)

A corrente de curto-circuito é a corrente máxima que pode fluir pelo barramento em caso de falta — e o sistema deve ser capaz de suportá-la pelo tempo necessário para a atuação da proteção (disjuntor ou fusível).

O valor do Icc no ponto de instalação do barramento é obtido do estudo de curto-circuito da instalação, que deve ser realizado pelo engenheiro responsável pelo projeto elétrico. Para barramentos instalados próximos ao transformador — onde o Icc é maior — esse parâmetro é especialmente crítico.

Parâmetro de curto-circuito

Símbolo

Como obter

Corrente de curto-circuito trifásico

Icc3ϕ

Obtido através dos dados do transformador de entrada e dos parâmetros do circuito até o ponto onde o barramento é instalado

Corrente de pico (valor de crista)

Ipico

Ipico = Icc × fator de crista (tipicamente 1,7 a 2,2)

Tempo de atuação da proteção

t

Definido pela curva de atuação do dispositivo de proteção

O fabricante do barramento deve informar a corrente de curto-circuito admissível do sistema, normalmente para o tempo padrão de 1 s (em kA / 1 s) para que o projetista confirme a adequação do produto às condições da instalação.

Passo 3 — Verificar a queda de tensão (ΔU)

A queda de tensão ao longo do percurso do barramento deve ser mantida dentro dos limites estabelecidos pelo projeto elétrico e pela norma estabelecida pela concessionária de energia.

Para o barramento blindado, a queda de tensão depende da resistência e da reatância dos condutores por unidade de comprimento — valores fornecidos pelo fabricante nas especificações técnicas do produto — da corrente de demanda e do fator de potência da carga.

Parâmetro

Referência / Valor típico

Queda de tensão máxima admissível

De acordo com a ABNT NBR 6410 ou norma específica de cada concessionária.

Resistência do condutor (R)

Fornecida pelo fabricante em mΩ/m — varia conforme o modelo e a corrente nominal

Reatância do condutor (X)

Fornecida pelo fabricante em mΩ/m — geralmente menor que a resistência em BT

Fórmula simplificada (trifásico)

ΔU = √3 × I × L × (Rcosϕ + Xsenϕ) L = comprimento do percurso (m)

Fator K

 em V/100m/A

Passo 4 — Definir o grau de proteção IP

Segundo a norma ABNT NBR 60529º, o grau de proteção IP do barramento blindado é definido pelo ambiente de instalação. A tabela a seguir resume os graus de proteção mais comuns e os ambientes correspondentes:

IP

Ambiente de instalação

Exemplos

IP54

Ambiente com presença moderada de poeira e respingos

Indústrias com geração de particulados, áreas de manufatura

IP55

Ambiente com poeira e jatos de água em qualquer direção

Plantas alimentícias, ambientes externos cobertos, fundições

IP65

Proteção total contra poeira e jatos de água

Ambientes externos, lavagem frequente com mangueira

Passo 5 — Aplicar o fator de correção de temperatura

A corrente nominal de um barramento blindado é definida para temperatura ambiente de referência — geralmente 35°C. Para instalações em ambientes com temperatura superior, a corrente nominal precisa ser reduzida por um fator de correção (k1), para garantir que o condutor não ultrapasse sua temperatura máxima de operação.

Esses fatores são fornecidos pelo fabricante nas especificações técnicas do produto.

Em plantas industriais com fornos, fundições ou processos de alta temperatura, a temperatura ambiente no local de instalação do barramento pode ser significativamente maior do que a temperatura externa. Medir ou estimar a temperatura real do ambiente é essencial para um dimensionamento preciso.

Passo 6 — Mapear o percurso e definir os acessórios

Com os parâmetros elétricos definidos, o último passo do dimensionamento é o mapeamento físico do percurso — o trajeto que o barramento percorrerá desde o quadro de alimentação até os pontos de distribuição.

O mapeamento do percurso define:

  • Comprimento de cada segmento reto do sistema — em metros lineares
  • Número e tipo de curvas — horizontais, verticais, planas — conforme as mudanças de direção do percurso
  • Posição das derivações em T — para ramificações do percurso principal
  • Posição e tipo dos plugues de tomada — pontos de derivação para cargas ao longo do percurso
  • Junta de dilatação — necessária em percursos superiores a 30 metros lineares para absorver a dilatação térmica
  • Suportes e fixações — espaçamento e tipo conforme o peso do sistema e as condições de instalação

 

Esse mapeamento é normalmente realizado em conjunto com o fabricante, a partir de uma planta baixa ou isométrico da instalação. A HB Holec Barras apoia os projetistas nessa etapa, fornecendo o layout completo dos acessórios e a lista de materiais do sistema.

Próximo artigo da série

Com o sistema dimensionado, a próxima questão é: quais normas técnicas regem a fabricação e a instalação do barramento blindado no Brasil — e o que significa, na prática, um barramento certificado conforme a IEC 61439-6?

No próximo artigo desta série, vamos detalhar as normas técnicas aplicáveis, os ensaios de tipo exigidos e o que é a homologação junto às concessionárias de energia.